Buscar
Buscar
logo

A alternativa à amarelinha: polarização e futebol

06 de junho de 2026
A alternativa à amarelinha: polarização e futebol

Imagem ilustrativa: reprodução

A aproximação da Copa do Mundo deste ano reacendeu um debate que, há tempos, atravessa a sociedade brasileira: afinal, a quem pertencem os símbolos nacionais? A bandeira do Brasil, as cores verde e amarelo e a própria camisa da Seleção Brasileira deveriam ser elementos de união nacional, mas acabaram se tornando objeto de disputa política e ideológica.

>> Clique aqui e participe do Canal VEJAESSA no WhatsApp

Nos últimos anos, especialmente durante o ciclo político marcado pelo bolsonarismo, a camisa amarela da Seleção passou a ser amplamente utilizada em manifestações e atos de caráter conservador. O fenômeno foi tão intenso que muitos brasileiros passaram a associar automaticamente o uniforme a uma determinada posição política. Como consequência, parte da população passou a evitar o uso da camisa e até mesmo das cores nacionais, receosa de transmitir uma mensagem que não corresponde às suas convicções.

A proximidade da Copa do Mundo, porém, trouxe novamente a discussão à tona. Nas redes sociais, nos meios de comunicação e nas conversas cotidianas, voltou a surgir a pergunta: é possível torcer pela Seleção sem carregar um significado político? O debate revela como símbolos que deveriam representar toda a nação acabaram capturados pelas divisões da vida pública brasileira.

Entretanto, a ideia de que a direita seria naturalmente mais patriótica merece ser questionada. O patriotismo não pode ser medido pela quantidade de bandeiras exibidas em manifestações. Aliás, durante os últimos anos, foi comum observar enormes bandeiras dos Estados Unidos em atos políticos realizados no Brasil, inclusive em celebrações do 7 de Setembro. A cena evidencia uma contradição: ao mesmo tempo em que se reivindica o monopólio do amor à pátria, exalta-se símbolos de uma potência estrangeira em eventos dedicados à identidade nacional brasileira.

Por outro lado, a esquerda também possui sua parcela de responsabilidade nesse processo. Historicamente, os setores progressistas sempre tiveram forte compromisso com a valorização da cultura nacional. A defesa da música brasileira, do cinema nacional, da literatura, da memória histórica e das manifestações populares sempre esteve presente em sua trajetória. Em contraste, parte da direita frequentemente demonstra maior identificação com produtos culturais importados, especialmente do entretenimento norte-americano.

Apesar disso, muitos segmentos da esquerda acabaram desenvolvendo resistência aos símbolos ligados à Seleção Brasileira e às cores nacionais. Essa postura possui explicações históricas. Durante a ditadura militar, especialmente após a conquista da Copa do Mundo de 1970, o regime utilizou intensamente a imagem da Seleção, da bandeira e do nacionalismo como instrumentos de propaganda política. A partir daí, consolidou-se em determinados setores progressistas uma desconfiança em relação a símbolos que passaram a ser associados ao autoritarismo e ao conservadorismo.

O problema é que abandonar esses símbolos não os torna neutros. Pelo contrário: facilita sua apropriação por grupos específicos. Quando uma parcela da sociedade deixa de ocupar determinado espaço simbólico, outra parcela inevitavelmente passa a dominá-lo. Foi exatamente isso que aconteceu com a camisa da Seleção, transformada de patrimônio nacional em marcador político.

Talvez seja hora de pensar em um recomeço. Uma possibilidade seria o retorno da tradicional camisa branca da Seleção Brasileira. Pouca gente lembra, mas o primeiro uniforme do Brasil era branco. A mudança para o amarelo ocorreu após a traumática derrota para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950, o famoso Maracanaço. Em 1953, um concurso nacional definiu o novo uniforme amarelo com detalhes verdes, que se tornaria um dos símbolos mais reconhecidos do esporte mundial.

Mais recentemente, a própria Seleção ensaiou um retorno a essa tradição. Em 2019, durante a Copa América disputada no Brasil, a equipe voltou a atuar com a camisa branca em uma partida oficial, resgatando o uniforme original de sua história. A iniciativa foi recebida com simpatia por muitos torcedores e demonstrou que o antigo uniforme continua vivo no imaginário nacional. Diante da crescente politização da camisa amarela nas últimas décadas, talvez essa excepcionalidade não devesse permanecer apenas como uma homenagem histórica. A adoção definitiva da camisa branca como uniforme principal poderia representar uma oportunidade de reconstruir um símbolo nacional menos associado às disputas políticas contemporâneas e mais conectado à ideia de pertencimento comum.

Mais de sete décadas depois, a camisa branca poderia representar uma espécie de reconciliação simbólica. Livre das associações políticas recentes e conectada às origens da Seleção, ela teria potencial para resgatar a ideia de que o futebol brasileiro pertence a todos os brasileiros, independentemente de suas posições ideológicas.

A simbologia seria ainda mais interessante sob a perspectiva da física. A luz branca é formada pela soma de todas as cores do espectro visível. Nela estão presentes o azul, o amarelo e o verde da bandeira nacional, mas também o vermelho tradicionalmente associado aos movimentos populares e à esquerda. A cor branca não elimina as diferenças; ela as reúne em uma única e harmoniosa composição.

Talvez essa seja a principal lição para o Brasil em mais um ano de Copa do Mundo. A Seleção, a bandeira e as cores nacionais não precisam ser instrumentos de divisão. Podem voltar a ser pontos de encontro. Afinal, nenhuma corrente política é dona do patriotismo, e nenhum grupo deveria reivindicar exclusividade sobre símbolos que pertencem a toda a nação.


..............

Fonte: Coluna – Por Luiz Oss