A metafísica das pequenas coisas e do cotidiano na poesia de Cynara Novaes
Erivan Santana e Cynara Novaes durante lançamento de "Delicadeza" – Imagens: arquivo pessoal/divulgação
Por Erivan Santana
A importância das pequenas coisas e do cotidiano se revelam por inteiro no novo livro "Delicadeza" (Editora Toma Aí um Poema, 2026), da poeta teixeirense Cynara Novaes.
O livro, que à primeira vista se mostra ao leitor sem maiores pretensões, a não ser a celebração da literatura e em especial da poesia, onde se percebe a preferência da autora em captar a sutileza e as entrelinhas das coisas simples e do cotidiano, vai além, ao abordar temas existenciais, como o tempo, a saudade, as relações humanas e as intempéries da vida.

Tudo isso ocorre de forma natural, com uma sucessão de poemas sem títulos, mas conectados entre si, o que deixa a leitura mais atraente e com surpresas, a cada virar de página. Não há concessões para formalismos ou proposta de bem-estar ou beleza gratuitos, imperiosamente fazendo-nos lembrar de Cecília Meireles: "... não sou alegre nem sou triste: sou poeta...".
>> Clique aqui e participe do Canal VEJAESSA no WhatsApp
Nessa mistura de sentimentos e inquietudes, há espaço também para a celebração da vida, com todo o seu fascínio e plenitude, como neste poema:
A vida estendia-se
sobre o quintal
como nada quer.
Na quietude das manhãs,
fazia-me rir
enquanto pintava de vermelho
o verde das maçãs.
Por vezes, ela me invadia
no intuito de agradar,
e nesses momentos
eu me encolhia
como se dissesse:
"nem tanto, nem tanto".
Fazendo jus ao nome "Delicadeza", que está inscrito nos corpos, na vida e nas pequenas coisas, podendo ser forte, pungente e complexo, revela também as dores e intempéries que nos desafiam, ao longo da nossa existência, como neste outro exemplo:
Primeiro,
achou que era doce,
tão somente porque era belo,
E não era.
Depois,
pensou ser terno,
tão somente porque parecia.
Mas não era.
Anoiteceu
em sal,
só e
ferido em tudo,
porque viver dói.
Desta forma, a poeta vai retratando a vida, entre alegria, deslumbramento, melancolia e esperança, porque ao colocar tudo isso na poesia revela seu desejo íntimo: a proposição da felicidade, que é o que, no fundo, a poesia tende a desejar e oferecer, como num dos últimos poemas a fechar o livro:
Posso dar nomes às coisas.
Nomeei a chuva de presente
e os presentes de delícias.
A alegria, chamarei de permaneça
e tudo o que pode magoar,
Amnésia.
Assim, Cynara Novaes mostra em "Delicadeza" todas as possibilidades que a poesia pode oferecer, com muita grandeza e originalidade, porque optou pelo caminho das coisas pequenas e do cotidiano, de maneira simples e sutil, com um único objetivo: expor seus sentimentos e fazer literatura, porque a poesia pode curar as dores da alma e propor novos futuros. Por isso vivemos e esperamos.
Em tempo: o livro receberá uma moção de aplausos na sessão final de 2026 da Academia Teixeirense de Letras (ATL).
Para adquirir a obra, clique neste link.
..............
Fonte: Vejaessa – Redação


