Buscar
Buscar
logo

Almir Zarfeg comenta a poesia política, libertária e feminista presente em “habeas corpas”

17 de abril de 2026
Almir Zarfeg comenta a poesia política, libertária e feminista presente em “habeas corpas”

Almir Zarfeg e Yara Fers durante a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) 2025 — Fotos: Divulgação

Yara Fers é uma poeta e editora paulista fixada na Bahia, mais precisamente em Camaçari, cidade da Região Metropolitana de Salvador. É também fundadora da Arpillera, editora de livros artesanais. 

O livro “habeas corpas” (Arpillera, 2025) é seu trabalho mais recente e cujas leitura e aquisição recomendo com entusiasmo. Pelas razões que seguem...

A obra está dividida em quatro partes bem articuladas temática e graficamente, de modo que o leitor mais perspicaz deduz logo que está diante de alguém experimentado no fazer poético. 

Tematicamente, os textos transmitem uma mensagem impactante e feminista, política e libertária, tendo como epicentro o corpo-mulher e a profusão de possibilidades que ele é capaz de suscitar e mobilizar. Compreendido mais que uma máquina, senão como corpo-próprio, causa-efeito de confrontos, deslocamentos, vivências, eroticidades, descobertas, etc. 

Nesse vaivém corporal, a poesia de Yara dialoga criticamente com as formas de poder e seus detentores e, também, lança mão das inúmeras referências literárias e/ou culturais. Por um lado, denuncia o patriarcado opressor presente em todas as épocas; do outro lado, se inspira nas expressividades artísticas e “in-corpora” a arte da palavra para despertar as consciências. 

Formalmente, o leitor atento se depara com novidades a todo momento, com a artesã se apropriando de termos oriundos de línguas vivas e/ou mortas – corpa, corpe, elus, eu-caristia, desmaçã, vangoghiana, destinas –, para dizer a que veio: tocar a sensibilidade do interlocutor. 

Almir Zarfeg comenta a poesia política, libertária e feminista presente em “habeas corpas”

O que seria “habeas corpas” do título senão uma apropriação interessante e potente do famigerado “Habeas corpus”, solene por natureza e safado pelo uso?  Que é uma mulher “doida de pedra” senão alguém que não só leu Drummond, mas também assimilou a arte da pedrada, simbólica ou literal?

Assim, (se) superando tudo e todos, nos planos do fundo/forma, Yara construiu uma obra madura, polissêmica e inventiva, mas, sobretudo, conjugou bem o binômio corpo/alma: “corpo” e “corpus delicti”; “corpo celeste” e “habeas corpus”. 

Na primeira parte “corpo”, destaquei os poemas “o homem vitruviano” e “a mulher vitruviana”, em que a autora retoma o famoso desenho de Da Vinci e, com humor ácido, descontrói o macho ideal, antropocêntrico, branco e europeu imposto especialmente a partir do humanismo pré-renascentista. 

Não desenhada por Da Vinci, mas idealizada/imposta pelos donos do poder – também chamados homens de bem –, “a mulher vitruviana” segue os passos do homem vitruviano. Moral e esteticamente falando: perfeita, seios em pé, lábios carnudos, pele alva e feita de uma costela do próprio...

Yara não pensa duas vezes e dá uma resposta à altura em versos certeiros: “todas as mulheres imperfeitas não-renascentistas / quebram o círculo / e o quadrado / e o pincel de Da Vinci”. E conclui com precisão: “incabíveis / no plural / abrimos os braços / as pernas / o mundo”.

Na segunda parte “corpus delicti”, destaquei os poemas “pedrada” e “mulher em construção”, em que a referência a Carlos Drummond de Andrade é explícita e proposital, a começar pela epígrafe pétrea. 

À maneira drummondiana, a poeta extravasa: “se tu / pedra dura na estrada / te apresentas / permanente / persistente / e atiras a primeira pedra”

A poeta se apresenta: “eu / muito mais pedra / muito mais dura / quatro pedras na mão / doida de pedra”. 

Já em “mulher em construção”, estabelece-se um diálogo com Vinicius de Moraes, em que Yara usa e abusa da intertextualidade e, ao mesmo tempo, explicita a polivalência feminina sobre a ambivalência masculina. (Infelizmente, o Poetinha não está vivo para apreciar a des-construção proposta por Yara.)

Porque a mulher – um dia cortando pão – percebeu que o operário faz a coisa, mas alguém Faz o operário! Simples assim. 

“a mulher percebeu / que tudo naquela mesa / – louça, comida, bebida – / era ela quem fazia / filho, esposo / cama, mesa, roupa limpa / janela, parede, chão / casa, cidade, nação! / tudo, tudo o que existia / também tinha a sua mão”.

Na terceira parte “corpo celeste”, destaquei os poemas “tabus” e “eu-caristia” 1 e 2. Aqui o erotismo fala mais alto do que, por exemplo, a crítica social e as ideologias psicossociais oferecidas em suaves prestações. 

O poema “tabus” se inicia botando o dedo na ferida machista: “hoje minha poesia vai / enfiar o dedo bem no meio do seu TABU”. 

Nas eucaristias (eu-caristias), a poeta incita e excita a imaginação dos leitores e leitoras semântica e visualmente. O texto, que verticalmente parece representar um cálice e horizontalmente uma vagina, começa assim: “tomai / minha / flor / rosácea / aberta...” e termina assim: “língua en / tre pétalas / até que / sejamos / comunhão”. Dizer mais o quê? Apenas saborear! 

>> Clique aqui e participe do Canal VEJAESSA no WhatsApp

A quarta parte, que dá título ao livro, é composta por dez textos: (in)corpora, trend, itálico, mapas, destinas, infinita highway, descaminhos, espelhos, desapocalipse e abre-te. (Gostaria de retomar desse ponto noutra oportunidade.)

Portanto, mulher, tenhas teu corpo, corpo livre, aberto a caminhos e possibilidades. Habeas corpus. Salve, Yara. Mãe das águas. Dona das palavras. 

Acompanhe a participação da Editora Arpillera na Bienal do Livro Bahia 2026 neste link.

...................................................

Almir Zarfeg é poeta e jornalista. Acaba de publicar “Pré-fácil, pós-fácil & outras facilidades” (Ventura Editora, 2026).


..............

Fonte: Vejaessa — Redação