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As múltiplas faces da cidade, em “Poesia Urbana”, de Alexandre Bollmann

07 de janeiro de 2026
As múltiplas faces da cidade, em “Poesia Urbana”, de Alexandre Bollmann

Erivan Augusto Santana dedica resenha à obra "Poesia Urbana", de Alexandre Bollmann — Foto: Divulgação

Por Erivan Augusto Santana

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Em “Poesia Urbana – Meio século de um Poeta das Cidades” (Ed. do Autor, 2025), o celebrado poeta e premiado contista Alexandre Bollmann traz à luz o poder da literatura – em especial da poesia. Ele retrata a cidade, com todas as suas dores, esperanças e desigualdades sociais, imersa no antro das contradições moderno-capitalistas.

Desta forma, o autor coloca a poesia em um status elevado, ajudando a desmistificar o senso comum, que muitas vezes vê a poesia apenas pelo aspecto da beleza estética, deixando de ver a sua amplitude, de muitas vozes, olhares e perspectivas.

Ao enfatizar a cidade – em particular o Rio de Janeiro – que o poeta conhece tão bem, carioca que é, ele fala também de qualquer cidade moderna, no Brasil e mundo afora, visto que as questões por ele abordadas são comuns, nesta globalização em que vivemos. 

Entretanto, convém observar que Bollmann, ao falar da cidade, fala na verdade das vidas humanas, que ali vivem, sobrevivem, transitam e sonham com dias melhores.

Já no poema que abre o livro “Poesia Urbana”, o poeta nos alerta: “O tempo corre, turbilhão/Tumulto/Uma multidão de vidas quebradas/Bradando por conserto.../Eu vou, buarqueando, na contramão/Atrapalhando o tráfego.../

Aqui, observamos toda a angústia da cidade moderna, o tumulto, principalmente quando pensamos em termos de transporte público, vidas quebradas pela desigualdade social, falta de oportunidades, violência, etc., mas que ainda tem uma ponta de esperança. 

Observamos também o fenômeno da intertextualidade, com a clássica canção “Construção” de Chico Buarque, um dos grandes da nossa MPB, vertente musical marcada por contar e retratar a realidade e a história do nosso país.

Vejamos o que nos diz o poeta em “Cartão Postal”: “Naquela casa de tijolos/Tem menino de pé no chão/Qualquer caixote vira mesa/E o conceito de beleza/É ter uma boa refeição”. 

Temos aí um Bollmann atento, observador, ciente das nossas desigualdades e injustiças sociais, que teimam em persistir, historicamente, no Brasil.

Mas “Poesia Urbana” também traça paralelos metalinguísticos, como podemos ver em “Mínimas Máximas Poéticas”: “...O verso é o reverso da voz/Quanto menos fala/Mais ele sugere/Quanto menos fechado/Mais ele transfere/Seu universo de som e silêncio/Repleto de múltiplos significados/De uma alma para outra...”

Comprovando a variedade e a versatilidade temática, que compõem a obra, temos este belo poema “Recordação”, a falar dos nossos afetos e lembranças de pessoas familiares, amigas e queridas: “O pai do meu pai/Pilotava avião/Hoje trafega/Nas linhas etéreas/Dando carona pro filho/Lá na imensidão/Enquanto trilho/Minhas próprias rotas/Sempre alçando voos/Sem sair do chão/Prossigo../

Uma obra literária é infinita, sobretudo poética, pelo seu alto grau de riqueza e subjetividade, de maneira que ela vai se multiplicando pelos múltiplos olhares e significados que os leitores, a depender de sua história de vida e formação, entre outros fatores, lhe vão atribuindo.

É o caso de “Poesia Urbana – Meio século de um Poeta das Cidades”, leitura indispensável, nestes tempos sombrios em que vivemos, em que a literatura tem muito a nos dizer e contribuir.

Um abraço fraterno aqui da Bahia, caro Alexandre Bollmann. Parabéns, caminhemos, ave, literatura!

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Fonte: Vejaessa/Erivan Augusto Santana