Cheiro da morte toma conta de La Guaira, onde desamparo aprofunda tragédia da Venezuela
Até domingo, o governo reconhecia oficialmente 1.450 mortos. A ONU estimava em mais de 40 mil o número de desaparecidos
Corpos retirados dos escombros de edifícios afetados pelos terremotos da semana passada aguardam nas ruas para serem recolhidos — Foto: Yan Boechat
O cheiro da morte tomou conta de La Guaira, a cidade mais impactada pelos devastadores terremotos que atingiram a Venezuela na última quarta-feira. No balneário turístico com praias caribenhas de mar azul, localizado a 26 km de Caracas, centenas, talvez milhares, de corpos se decompõem sob os escombros dos edifícios que não suportaram abalos sísmicos de 7,2 e 7,5 de magnitude. Com a demora do governo venezuelano em responder ao desastre, morreram muitos dos que sobreviveram num primeiro momento aos desabamentos. Sem estrutura, sem equipamentos e sem coordenação, a retirada dos cadáveres é lenta e caótica. Muitas vezes, familiares e vizinhos realizam o trabalho com pás, picaretas e suas próprias mãos. Pelas ruas da cidade não é raro encontrar grupos de corpos reunidos nas calçadas à espera de destino mais digno.
Tudo ainda é mais dramático nos necrotérios. No sábado, ao menos duas centenas de cadáveres apodreciam sob o sol de mais de 30ºC no estacionamento da Morgue de La Guaira. Muitos estavam desnudos, inchados, vertendo líquido sobre o asfalto quente. Familiares em busca de parentes circulavam em torno dos cadáveres tentando identificar entes queridos entre corpos já desfigurados, dilacerados pela violência de seus ferimentos. Muitos choram, outros vomitam diante da cena de horror. Mulheres, homens, crianças, quase todos em rigor mortis, traduziam uma tragédia da qual ainda não se sabe a dimensão exata.
Até domingo, o governo reconhecia oficialmente 1.450 mortos. A ONU estimava em mais de 40 mil o número de desaparecidos. Caracas confirmou que 774 edifícios foram danificados no país, dos quais 189 desmoronaram. O número de feridos ultrapassa 3.150, e 12.721 pessoas estão deslocadas de suas residências. Nas ruas de La Guaira, há a certeza de que muita gente segue presa sob as lajes de concreto que se empilham, uma sobre as outras, tal qual edifícios feitos com cartas de baralho. Três, dez, até 15 andares colapsaram em questão de segundos, esmagando amores, histórias e esperanças de quem sobreviveu ao maior terremoto no país em mais de um século.
>> Clique aqui e participe do Canal VEJAESSA no WhatsApp
Na última quinta-feira, Ezequiel Jimenez conseguiu retirar os corpos de três dos sete familiares que perdeu— um irmão, um cunhado, uma irmã e quatro sobrinhos. Com a ajuda de outros moradores de Playa Grande, nas proximidades do Aeroporto Internacional Simón Bolívar, ele escavou parte dos escombros e localizou o cunhado e dois sobrinhos. Desistiu de retirar os demais por não ter os equipamentos necessários. Voltou no sábado, esperançoso de que alguma equipe de resgate tivesse tido mais sorte do que ele. Em vão. Passou a manhã encarando outros corpos deixados na esquina do edifício onde vivam.
— Não consegui encontrar meus familiares, eles não estão aqui. Nem mesmo sei se continuam lá, sob a terra — disse.
A poucos metros dali, o cadáver de um homem jazia, comprimido entre duas lajes. Parte do corpo estava exposta, como se o desabamento do concreto o pegara a poucos segundos de uma fuga que jamais ocorreu. Os socorristas voluntários que vasculhavam um prédio vizinho não tiveram tempo de lhe dar atenção. Gritavam, batiam no que sobrou das paredes em busca de alguma resposta. A cada investida, silêncio. Ao fim da manhã, alguém achou por bem cobrir os restos mortais daquele homem com um pedaço de lençol branco que voou de um apartamento destruído.
Mulher chora ao acompanhar o resgate do filho de nove anos que não sobreviveu ao desabamento do prédio onde moravam — Foto: Yan Boechat
Francisca Nuñez, de 59 anos, encontrou seus mortos no segundo dia de angústia. As três filhas, a mais nova delas de apenas 14 anos, foram retiradas dos restos de sua casa na sexta-feira. Sob o sol quente e o calor de mais de 30 graus, seus corpos haviam entrado em decomposição quando foram retirados com a ajuda dos vizinhos.
— Elas já estavam inchadas, o cheiro era ruim, foram levadas para algum lugar, não sei bem, parece que vão cremá-las —disse.
Francisca Nuñez perdeu suas três filhas no terremoto e agora vive em frente de sua casa destruída sem saber para onde ir — Foto: Yan Boechat
Desde os terremotos, Francisca passa os dias em frente à casa destruída, abraçada a um colchão que lhe foi presenteado por uma desconhecida.
— O que mais tenho? O que sobrou da minha vida? Acho que tudo se foi — lamentou, ora entre lágrimas, ora com uma voz tristemente calma.
Críticas ao governo
Francisca, como quase todos, parecia ter energia apenas para criticar o governo venezuelano, comandado interinamente pela ex-vice-presidente Delcy Rodríguez desde a ação militar americana, em janeiro, contra Nicolás Maduro, hoje em uma prisão em Nova York.
Nos primeiros dias após os terremotos, a atuação das forças de segurança, da defesa civil e mesmo dos bombeiros foi débil. Pouca atuação, pouca coordenação e quase nenhuma ação efetiva para mitigar os impactos da destruição.
Mais de 100 edifícios vieram ao chão e outras centenas foram danificados nos terremotos que atingiram a Venezuela na semana passada — Foto: Yan Boechat
Em muitas áreas afetadas, os serviços de resgate, o apoio aos desabrigados e mesmo o atendimento de primeiros-socorros foram realizados majoritariamente por voluntários civis, vizinhos ou parentes das vítimas. Sem máquinas e equipamentos devidos, muitas vezes o trabalho era realizado com pás, picaretas, baldes e as mãos dos venezuelanos, que trataram de agir rapidamente, do jeito que puderam.
Sobreviventes do terremoto que agora vivem nas ruas sobrevivem com a doação de milhares de venezuelanos que foram até a cidade de La Guaira para auxiliar os desabrigados — Foto: Yan Boechat
Juan Diaz coordenava a ação no que restou de um edifício de 13 andares de frente para o mar. Enquanto sua equipe preparava a retirada do corpo de um menino de nove anos, mandou um recado aos brasileiros:
— Por favor, nos enviem serras. Temos força, mas não conseguimos cortar os vergalhões de aço, precisamos desse tipo de ajuda.
Nos edifícios destruídos, socorristas amadores imploram até nas placas que pregam em frente aos escombros. Em uma delas, lê-se: “Precisamos de máquinas, nos ajudem.”
Corrida contra o tempo
No domingo, os trabalhos passaram a ser mais coordenados, em especial com a chegada de apoio externo. Juntaram-se às forças locais 2.624 profissionais e 137 cães farejadores. Helicópteros e aeronaves americanas Osprey V-22 sobrevoam a região. Com tecnologia de ponta, equipes de diferentes países iniciaram uma corrida contra o tempo para encontrar sobreviventes. Alemães usavam sonares e sensores para detectar atividade humana. Os brasileiros trouxeram técnicos da Anatel que, com antenas especiais, detectam a presença de celulares soterrados. Cães do Corpo de Bombeiros de São Paulo vasculham destroços em busca de sinal de vida.
O tempo, no entanto, parece ser um adversário. Desesperançados, nauseados pelo cheiro da morte, os venezuelanos de La Guaira parecem já mais preocupados em enterrar seus mortos, encerrar um capítulo profundamente doloroso e encontrar alguma maneira de recomeçar a vida.
..............
Fonte: Reprodução – Por Yan Boechat/OGlobo


