Com “O tecelão de ausências”, Ramiro Guedes ganha destaque na poesia regional
"O Tecelão de Ausências", obra póstuma de Ramiro Guedes – Imagem: ilustração/Ualdo Dutra
Por Almir Zarfeg*
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Leitores não se tornam, necessariamente, poetas. Mas poetas são, por natureza, leitores dedicados. O saudoso Ramiro Guedes não me deixa mentir.
Em vida, ele fazia questão de deixar claro que era um bom leitor de prosa e poesia. Mas ele estava sendo modesto, como ficou revelado com a publicação de “O tecelão de ausências” (Lura Editorial, 2026), obra póstuma organizada por Arolda Maria Figuerêdo e por mim com o apoio da Academia Teixeirense de Letras (ATL) e os recursos oriundos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB).
Ou seja, o fundador da Cadeira 07 da ATL foi tanto bom leitor quanto poeta de mão cheia, disso não restam quaisquer dúvidas. Já o prosador será confirmado quando forem publicados seus contos e crônicas, que seguem inéditos e sob os cuidados da titular da Cadeira 10, Arolda Figuerêdo.
Dito isso, voltemos nosso olhar às páginas de “O tecelão de ausências”, cujo título revela algumas nuances. Primeira: todo poeta tece palavras que, juntas, compõem o texto, a teia e o contexto do qual, em sã consciência, ninguém está livre. Segunda: todo poeta (bom poeta) costura ausências, através da teia de palavras que, com jeito e arte, têm seus sentidos sublimados pelas figuras de estilo. Simbólico vira semiótico.
A obra em questão reúne a produção poética, pequena mas expressiva, do radialista mineiro que virou estrela em junho de 2021, após a falência dos órgãos em Teixeira de Freitas, no extremo sul da Bahia, onde vivia há mais de 30 anos.
Ao todo, são 57 textos poéticos que versam sobre os mais diversos temas, conduzidos com habilidade linguística e densidade filosófica, ao mesmo tempo envolvidos em uma linguagem atrativa, não raro com apelos à coloquialidade e ao bom humor, como forma de cativar os leitores.
Ramiro Guedes e Almir Zarfeg num bate-papo sobre poesia
Isso mesmo. Porque a temática do amor, das carências (material, emocional e cultural), da crítica política e da celebração da vida não só se faz presente no livro, como também faz dele uma experiência relevante nestes dias marcados pela liquidez e superfluidade das relações interpessoais. E boa literatura constitui, sim, alimento para a alma.
Ramiro usa a poesia também para homenagear as pessoas queridas que encontrou pela vida, como Luciano (filho morto prematuramente), Cynara Novaes (poetisa amiga sempre citada), bem como seus autores preferidos, como Machado de Assis, Eça de Queirós e Manoel de Barros, com os quais volta e meia dialogava. Aos quais prestava reverência. Encontros proporcionados pelas ondas do rádio (“Almoço à brasileira”) e pela magia lítero-cultural (Projeto Geladeiroteca e Coletivo das Artes Motirô).
Seja através de texto mais longo (“Jesus autista”) ou minimalista (“Natal”) – discursivo versus sintético –, Ramiro Guedes lança mão da escrita como instrumento valioso para contar uma história, tecer uma ausência, celebrar um dia ensolarado, mas, sobretudo, para emocionar o leitor com um verso bem-ajambrado e muita cumplicidade poética.
O lançamento póstumo desse “O tecelão de ausências”, portanto, vai fixar ainda mais o cidadão natural de Teófilo Otoni entre nós como profissional do rádio e referência na poesia praticada em Teixeira de Freitas e região.
Muito mais do que uma singela apresentação, minha intenção aqui é enfatizar Ramiro Guedes da Luz como um nome que precisa ser lembrado e valorizado pela coletividade. Porque é luz para todos nós.
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Almir Zarfeg é poeta, jornalista e presidente de honra da ATL.
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Fonte: Vejaessa — Redação


