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Independência de quem? Há um ano, bolsonaristas exibiam bandeira dos EUA na Paulista

07 de setembro de 2026
Independência de quem? Há um ano, bolsonaristas exibiam bandeira dos EUA na Paulista

Foto: reprodução/internet

por Luiz Oss

Há exatamente um ano, no Dia da Independência do Brasil, uma das imagens mais simbólicas do bolsonarismo tomou a Avenida Paulista: uma gigantesca bandeira dos Estados Unidos foi exibida por manifestantes que se apresentam como defensores do patriotismo brasileiro.

A cena seria apenas irônica se não revelasse algo muito mais profundo: para uma parcela da direita bolsonarista, a pátria parece ser menos o Brasil e mais aquilo que vem embalado com a bandeira dos Estados Unidos.

O discurso de “Brasil acima de tudo” perde completamente o sentido quando seus próprios propagadores demonstram fascínio por uma potência estrangeira e disposição para pedir sua intervenção na política brasileira. O patriotismo, nesse caso, parece funcionar como fantasia: veste-se de verde e amarelo, mas olha permanentemente para Washington.

Patriotismo de fachada

Existe uma contradição difícil de esconder. O bolsonarismo construiu uma estética patriótica poderosa, apropriando-se da bandeira, do hino e das cores nacionais. Mas, ao mesmo tempo, parte de sua militância passou a tratar os Estados Unidos como uma espécie de árbitro moral do planeta.

Donald Trump virou ídolo político incontestável. Autoridades americanas passaram a ser tratadas como salvadoras. Sanções contra brasileiros foram celebradas por setores dessa direita. E a soberania nacional, que deveria ser princípio inegociável para qualquer nacionalista, tornou-se algo secundário quando entra em conflito com os interesses do país do tio Sam.

Isso não é patriotismo. É vassalagem geopolítica.

Um país soberano pode admirar os Estados Unidos, negociar com eles e até compartilhar valores ou interesses. O que não deveria fazer é transformar uma potência estrangeira em referência absoluta para definir quem são seus amigos, seus inimigos e até o que é certo ou errado dentro de seu próprio território.

A aversão ao que é brasileiro

Há também um fenômeno cultural nesse comportamento.

O soft power americano — cinema, música, séries, marcas, redes sociais e toda uma indústria cultural capaz de transformar o modo de vida estadunidense em objeto de desejo — exerce enorme influência no mundo inteiro. O problema começa quando essa influência deixa de ser consumo cultural e se transforma em submissão cultural e política.

Em setores do bolsonarismo, existe uma curiosa dificuldade de reconhecer valor na própria cultura brasileira. O que vem dos Estados Unidos frequentemente aparece como moderno, civilizado e superior. O que é produzido no Brasil é tratado, não raro, com desprezo ou como sinal de atraso.

É como se o Brasil precisasse se tornar uma cópia mal-acabada dos Estados Unidos para finalmente ser considerado digno de admiração.

E Israel?

A mesma lógica aparece na relação quase devocional de parte do bolsonarismo com Israel.

A aproximação é frequentemente justificada por razões religiosas, especialmente entre grupos evangélicos que interpretam a política internacional a partir de determinadas leituras bíblicas. Mas isso produz uma contradição incômoda: até que ponto princípios cristãos podem ser conciliados com políticas de um Estado quando estas são acusadas por organismos internacionais de envolver graves violações dos direitos humanos?

A situação em Gaza tornou essa contradição ainda mais evidente.

Organizações internacionais e especialistas em direitos humanos têm denunciado mortes em massa de civis, deslocamentos forçados, destruição de infraestrutura essencial e outras graves violações cometidas no contexto da guerra. 

Ainda assim, parte da direita brasileira parece incapaz de fazer qualquer crítica ao governo israelense. A solidariedade religiosa acaba funcionando, em determinados setores, como uma espécie de salvo-conduto político.

E isso também revela uma seletividade preocupante: condena-se a violência quando praticada pelo adversário geopolítico, mas relativiza-se quando praticada por um aliado.

O mundo dividido entre “civilizados” e “inimigos”

A influência americana também aparece na forma como o bolsonarismo enxerga o mundo.

Cria-se uma narrativa simplista em que os Estados Unidos representam liberdade, democracia e civilização, enquanto seus adversários — sejam eles governos, países ou movimentos políticos — são apresentados como ameaças à própria humanidade.

É uma visão infantilizada da geopolítica.

Países não possuem amigos eternos. Possuem interesses. Os Estados Unidos defendem os seus. As demais nações também. E o Brasil deveria fazer o mesmo. 

O que não faz sentido é um brasileiro enxergar a política internacional como torcedor de uma potência estrangeira e comemorar qualquer medida contra seu próprio país simplesmente porque ela beneficia seus aliados ideológicos.

E quando chega o momento de escolher entre os interesses do Brasil e os interesses de uma potência estrangeira admirada por seus líderes, a máscara cai.

Porque, no fim, existe uma diferença enorme entre patriotismo e nacionalismo de fachada: o primeiro coloca o país acima de governos e potências estrangeiras; o segundo usa a pátria como fantasia para esconder sua submissão.

E esta é uma ironia mórbida, o bolsonarismo veste o seu ódio ao próprio país com a nossa bandeira verde e amarela.

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Fonte: Coluna – Por Luiz Oss