Independência de quem? Há um ano, bolsonaristas exibiam bandeira dos EUA na Paulista
Foto: reprodução/internet
por Luiz Oss
Há exatamente um ano, no Dia da Independência do Brasil, uma das imagens mais simbólicas do bolsonarismo tomou a Avenida Paulista: uma gigantesca bandeira dos Estados Unidos foi exibida por manifestantes que se apresentam como defensores do patriotismo brasileiro.
A cena seria apenas irônica se não revelasse algo muito mais profundo: para uma parcela da direita bolsonarista, a pátria parece ser menos o Brasil e mais aquilo que vem embalado com a bandeira dos Estados Unidos.
O discurso de “Brasil acima de tudo” perde completamente o sentido quando seus próprios propagadores demonstram fascínio por uma potência estrangeira e disposição para pedir sua intervenção na política brasileira. O patriotismo, nesse caso, parece funcionar como fantasia: veste-se de verde e amarelo, mas olha permanentemente para Washington.
Patriotismo de fachada
Existe uma contradição difícil de esconder. O bolsonarismo construiu uma estética patriótica poderosa, apropriando-se da bandeira, do hino e das cores nacionais. Mas, ao mesmo tempo, parte de sua militância passou a tratar os Estados Unidos como uma espécie de árbitro moral do planeta.
Donald Trump virou ídolo político incontestável. Autoridades americanas passaram a ser tratadas como salvadoras. Sanções contra brasileiros foram celebradas por setores dessa direita. E a soberania nacional, que deveria ser princípio inegociável para qualquer nacionalista, tornou-se algo secundário quando entra em conflito com os interesses do país do tio Sam.
Isso não é patriotismo. É vassalagem geopolítica.
Um país soberano pode admirar os Estados Unidos, negociar com eles e até compartilhar valores ou interesses. O que não deveria fazer é transformar uma potência estrangeira em referência absoluta para definir quem são seus amigos, seus inimigos e até o que é certo ou errado dentro de seu próprio território.
A aversão ao que é brasileiro
Há também um fenômeno cultural nesse comportamento.
O soft power americano — cinema, música, séries, marcas, redes sociais e toda uma indústria cultural capaz de transformar o modo de vida estadunidense em objeto de desejo — exerce enorme influência no mundo inteiro. O problema começa quando essa influência deixa de ser consumo cultural e se transforma em submissão cultural e política.
Em setores do bolsonarismo, existe uma curiosa dificuldade de reconhecer valor na própria cultura brasileira. O que vem dos Estados Unidos frequentemente aparece como moderno, civilizado e superior. O que é produzido no Brasil é tratado, não raro, com desprezo ou como sinal de atraso.
É como se o Brasil precisasse se tornar uma cópia mal-acabada dos Estados Unidos para finalmente ser considerado digno de admiração.
E Israel?
A mesma lógica aparece na relação quase devocional de parte do bolsonarismo com Israel.
A aproximação é frequentemente justificada por razões religiosas, especialmente entre grupos evangélicos que interpretam a política internacional a partir de determinadas leituras bíblicas. Mas isso produz uma contradição incômoda: até que ponto princípios cristãos podem ser conciliados com políticas de um Estado quando estas são acusadas por organismos internacionais de envolver graves violações dos direitos humanos?
A situação em Gaza tornou essa contradição ainda mais evidente.
Organizações internacionais e especialistas em direitos humanos têm denunciado mortes em massa de civis, deslocamentos forçados, destruição de infraestrutura essencial e outras graves violações cometidas no contexto da guerra.
Ainda assim, parte da direita brasileira parece incapaz de fazer qualquer crítica ao governo israelense. A solidariedade religiosa acaba funcionando, em determinados setores, como uma espécie de salvo-conduto político.
E isso também revela uma seletividade preocupante: condena-se a violência quando praticada pelo adversário geopolítico, mas relativiza-se quando praticada por um aliado.
O mundo dividido entre “civilizados” e “inimigos”
A influência americana também aparece na forma como o bolsonarismo enxerga o mundo.
Cria-se uma narrativa simplista em que os Estados Unidos representam liberdade, democracia e civilização, enquanto seus adversários — sejam eles governos, países ou movimentos políticos — são apresentados como ameaças à própria humanidade.
É uma visão infantilizada da geopolítica.
Países não possuem amigos eternos. Possuem interesses. Os Estados Unidos defendem os seus. As demais nações também. E o Brasil deveria fazer o mesmo.
O que não faz sentido é um brasileiro enxergar a política internacional como torcedor de uma potência estrangeira e comemorar qualquer medida contra seu próprio país simplesmente porque ela beneficia seus aliados ideológicos.
E quando chega o momento de escolher entre os interesses do Brasil e os interesses de uma potência estrangeira admirada por seus líderes, a máscara cai.
Porque, no fim, existe uma diferença enorme entre patriotismo e nacionalismo de fachada: o primeiro coloca o país acima de governos e potências estrangeiras; o segundo usa a pátria como fantasia para esconder sua submissão.
E esta é uma ironia mórbida, o bolsonarismo veste o seu ódio ao próprio país com a nossa bandeira verde e amarela.
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Fonte: Coluna – Por Luiz Oss


