No Dia Mundial da Poesia, Almir Zarfeg comenta “E nada pode ser feito quanto a isso”
O poeta e artista plástico Marcelo Frazão durante a Flipelô 2023
Clique aqui e participe do Canal VEJAESSA no WhatsApp
“E nada pode ser feito quanto a isso” (Edição P55, 2023), de Marcelo Frazão, faz parte da Coleção Cartas Bahianas, projeto editorial em forma de envelope que, pela sua relevância literária e cultural, continua enchendo meus olhos. Mas isso é outra história.
Antes de qualquer coisa, porém, é preciso dizer que o poeta não trabalha com a palavra, mas trabalha a palavra, e isso faz toda a diferença. Porque, ao usar e abusar da palavra, de maneira criativa, ele faz milagre. Milagre verbivocovisual.
Afinal de contas, os leitores mais exigentes querem apreciar o texto nas suas dimensões verbal, visual e sonora. Isso vale tanto para a poesia mais visual – como a concreta e o chamado poema/processo, quanto para o poema em que o visual e o discursivo se misturam e se complementam – como no novo livro de Marcelo Frazão –, para extrair efeitos estético-expressivos e estabelecer a desejada recepção autor/leitor.
No fundo, no fundo (ou melhor, na forma, na forma), a grande ambição dos poetas dignos desse nome continua sendo transformar símbolos em ícones. A saber, moldar e/ou tecer a palavra de tal forma que, ao fim e ao cabo, o texto e/ou a teia se transformem em um emaranhado semiótico para ser visto/lido e apreciado. Enfim, um produto estético e cultural resultante mais da invenção artística do que da imitação realística.
Dito isso, passemos a “E nada pode ser feito quanto a isso”, que de pronto conduz o leitor a uma situação-limite, sem saída e aporética, já no título da obra que, por sua vez, remete ao pequeno poema que encerra o conjunto de 49 textos poéticos.
Vamos a ele ipsis litteris e in totum: “Felicidade / é o momento exato / quando os desejos nascem / e nada / pode ser feito quanto a isso”.
Almir Zarfeg com exemplar de "E nada pode ser feito quanto a isso"
A partir da leitura do texto acima, podemos tirar algumas conclusões sobre o poeta e seu fazer em questão. Primeira: a concisão é marca registrada de Frazão, a qual aparece, quase sempre, casada com uma linguagem direta, em tom coloquial, pronta para atrair a atenção ou capturar a sensibilidade do leitor.
Segunda: ao mesmo tempo em que se apossa da linguagem, o poeta também se apodera do espaço em branco da página, de modo que os versos e as estrofes, o ritmo e a melodia (formalmente) se impõem à atenção e consciência dos interlocutores. Não esquecendo que, antes de ser poeta, Frazão é artista plástico.
Em terceiro lugar: disso se depreende que forma e fundo, expressão e conteúdo caminham de mãos dadas, para que a mensagem poética consiga se realizar plenamente. Portanto, a felicidade existe – porque é desejo. O ser humano é movido por desejos. Logo, somos felizes. Necessariamente condenados à felicidade, parodiando o princípio sartriano. Isso vale para a infelicidade nossa de cada santo dia. E nada poderá ser feito quanto a isso.
Eis aí uma solução simples, singela mesmo, para a qual convergem os planos de expressão e sentido, chegando-se a um resultado plausível. O autor não precisou lançar mão de nenhuma metáfora mirabolante ou qualquer malabarismo linguístico. Enfim, o desejo é causa e a felicidade, consequência. Platão, Nietsche e Freud também sabiam disso.
A essa altura dos acontecimentos, podemos tirar mais duas conclusões da obra em questão. A intertextualidade – direta ou indireta – permeia os textos através dos diálogos com a política, a mitologia, a sexualidade e com o próprio fazer poético – num exercício de metapoesia caro aos poetas conscientes do poder da linguagem.
(A propósito, as Cartas Bahianas se ligam, intertextualmente, às famosas Cartas Baianas – que saíram pela primeira em 1980 na Coleção Brasiliana e foram escritas entre 1821/1824 e trocadas pelo militar e deputado Luís Paulino Pinto da França, sua esposa Maria Bárbara, filhos e demais correspondentes. Ele se encontrava em Portugal, enquanto eles residiam na província da Bahia. As cartas constituem um precioso registro do período conturbado em que se deu a independência da colônia da metrópole.)
Por fim e não menos importante: o eu lírico se revela tão senhor de si e de seus atos, tão dono dos desejos de bem e mal, que a impressão que prevalece é a de que ele age para abafar o lirismo, como o incendiário que, arrependido, tenta apagar o incêndio – ou como o criador que, exigente, estabelece limites à criatura. De preferência, abrindo mão de todo e qualquer ilusionismo.
Claro que a poesia de Marcelo Frazão é muito mais multifacetada e plural e, portanto, aberta a tantas e quantas apreciações que formos capazes de lhe dedicar. O que deixei registrado aqui, neste Dia Mundial da Poesia, são apenas impressões que, em outro momento, poderão ser mais bem desenvolvidas e enriquecidas teoricamente. Quanto a isso, muito ainda poderá ser feito.
Para adquirir o livro de Marcelo Frazão, Clique Aqui.
..............
Fonte: Redação


