O fim da publicidade e a teoria da internet morta
imagem ilustrativa — reprodução
por Gabrielle Andreza
As coisas sem custo são as coisas com valor.
Hoje em dia, quase toda experiência deve ser paga. Ou, pelo menos, qualquer coisa útil que você precise utilizar a internet.
Você precisa pagar para ter acesso aos filmes e séries que gosta, e até então sem problemas. As empresas precisam lucrar, os artistas precisam lucrar. Mas então você tem que escolher o plano com anúncios, pouco anúncios e por fim, o livre de anúncios. Ora, pensei estar pagando para ver doramas e não a propaganda da Skol.
E não é como se você tivesse tempo para assistir a tudo que gostaria, ou que o seu trabalho te permitisse aproveitar o seu Spotify Premium, e olhe só, ele também tem anúncios.
>> Clique aqui e participe do Canal VEJAESSA no WhatsApp
Mas, quando você se torna um adulto que trabalha, é desgastante perder tempo evitando 50 vírus, 30 anúncios de sites pornográficos e fechar todas as abas de "mães solteiras perto de você" para conseguir assistir a um filme pirata. Bom, talvez você deva assinar o plano dos sites de pirataria também.
Eu me pergunto se essa quantidade absurda de anúncios traz um bom retorno financeiro.
Eu não posso pular os comerciais na TV aberta, mas quem é que assiste TV aberta?
Mas na internet eu posso pagar uma extensão no meu navegador que remove anúncios.
Ironia: pago para ter acesso ao conteúdo e depois pago para ter o conteúdo sem anúncios.
O Instagram é uma empresa, o TikTok é uma empresa e a maioria dos influenciadores são vendedores.
Porque produzir conteúdo não é mais ter uma ideia interessante e gravar. Produzir conteúdo é gravar qualquer coisa que dê para colocar um anúncio no meio. E isso é triste.
Recentemente li, no Reddit, sobre a Teoria da Internet Morta. Será que a internet morreu e estamos interagindo mais com robôs do que com humanos?
É estranho que existam tantas pessoas que eu não sei o nome, mas que têm cinco milhões de seguidores no Brasil. É estranho que as empresas tenham dinheiro para patrocinar tantas pessoas aleatórias e que haja tanto público.
Quem assiste a vídeos de carros atropelando brinquedos no YouTube?
Quem assiste a esses vídeos ridículos de "faça você mesmo" que ninguém usa?
A quem interessa uma empresa localizada no Chipre produzir vídeos idiotas em tantos idiomas, como faz o 5-Minute Craft?
Os vídeos de centenas de celulares assistindo ao mesmo vídeo são reais?
Como isso fatura, como isso funciona? A internet morreu? A boa publicidade morreu?
Resolvi pesquisar sobre os critérios de monetização nas plataformas, e me parece que não existem critérios certos. Você pode ter 1 milhão de seguidores e pouco engajamento, mas, ao mesmo tempo, pode ter 300 seguidores e milhares de comentários.
Como a plataforma entrega um conteúdo para quem não me segue e não para quem me segue?
Quem está me vendo?
E às vezes é inserido algo totalmente aleatório no seu feed. Como se você estivesse sendo testado. É quase como a história de sugerirem pessoas do mesmo sexo no seu Tinder, mesmo quando você marca que é hetero.
E então, você vê vários perfis sem foto, a "conta nova" na bio, 0 seguidores e 0 postagens. Nomes de usuários aleatórios, uma foto de cachorro ou algo que parece ter sido tirado do site "this person don't exist". Isso é assustador. As empresas de internet são assustadoras e os anúncios são assustadores.
A atenção do usuário e um novo modelo de negócio. E para piorar, não são só empresas aleatórias brincando com o usuário.
Os políticos perceberam que podem vender sua imagem investindo fortemente nas redes sociais. O perfil do Governo é cheio de memes e referências ao público jovem. A disputa pela atenção é uma prioridade, e parece estar tudo bem que existam mais pessoas com acesso à internet do que com saneamento básico. Não existem mais fronteiras entre propaganda política e propaganda em entretenimento. Quase todo entretenimento está te pedindo para comprar algo. A internet morreu e levou com ela qualquer senso estético e ético de uma propaganda.
Existem cada vez mais formas diferentes e criativas de te viciar em dopamina para convencer a comprar algo.
Não serei hipócrita, adoro os anúncios do cara que te "ensina" a guardar seus itens para uma viagem internacional, mas embala tudo de forma que pareça uma arma. É criativo, é engraçado e eu não faço ideia do que ele vende porque pulo essa parte.
Hoje podemos conviver "socialmente" com Hyraki de Jesus, sendo um cantor gospel coreano que não existe.
Podemos conviver com influencers de IA que alimentam fetiches e dão golpes financeiros em idosos e o instagram até permite mudar sua voz nos áudios.
Mas estou cansada dos anúncios e cansada da IA. Eu não quero que o meu feed seja traduzido automaticamente, onde está minha experiência de imersão linguística?
Eu não quero ver anúncios toscos gerados pelo ChatGPT e nem professores que não existem.
Saudades de quando as redes sociais pareciam um método de espionagem do Governo e não um experimento do quanto podemos pagar para ter coisas que antes existiam de graça.
Talvez a internet não tenha morrido, talvez ela só esteja colonizada demais pela publicidade.
............................
Para conhecer mais sobre as publicações de Gabrielle, clique aqui!

..............
Fonte: Vejaessa – Redação


