O homem que virou mártir: quem foi Tiradentes e por que o Brasil para em 21 de abril
Imagens: reprodução internet
HISTÓRIA & MEMÓRIA
Joaquim José da Silva Xavier foi enforcado e esquartejado em 1792 por liderar a Inconfidência Mineira. Dois séculos depois, é feriado nacional e símbolo da luta pela liberdade — mas a história real é mais complexa e fascinante do que o mito.
Todo ano, no dia 21 de abril, o Brasil para. Bancos fecham, repartições públicas encerram, escolas ficam vazias. O motivo oficial é homenagear Tiradentes, o mártir da independência. Mas quem foi, de fato, esse homem? E como um alferes fracassado numa conspiração mal-sucedida se transformou no símbolo nacional que é hoje?
A resposta diz tanto sobre o Brasil quanto sobre Joaquim José da Silva Xavier — e envolve muito mais política do que história.
O filho do sertão que aprendeu a curar dentes
Joaquim José nasceu por volta de 1746, provavelmente em Santo Antônio do Rio Acima, região das Gerais. Filho de um fazendeiro de posses medianas, ficou órfão cedo e foi criado por um padrinho. Sem herança garantida, precisou se virar.
Aprendeu medicina prática — não pela universidade, que era privilégio de pouquíssimos na colônia, mas no contato com cirurgiões e práticos da época. Tratava feridas, fazia sangrias, extraía dentes. Daí o apelido que carregaria para a eternidade: Tiradentes.
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Tentou várias atividades: foi minerador, tropeiro, contratante. Em todas, enfrentou dificuldades financeiras. Aos 38 anos, ingressou no regimento de cavalaria como alferes — a patente mais baixa da hierarquia militar. Sonhava com uma promoção que nunca veio.
A conspiração que nunca decolou
O final do século XVIII foi um período de ebulição intelectual. As ideias iluministas circulavam pelos salões e pelas bibliotecas clandestinas. A Revolução Americana (1776) havia mostrado que colonos podiam vencer a metrópole. E Minas Gerais sufocava sob o peso dos impostos portugueses — especialmente a derrama, a cobrança forçada de ouro atrasado.
Foi nesse contexto que surgiu a Inconfidência Mineira, em 1788 e 1789. O movimento reuniu nomes influentes: poetas como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, padres, militares, magistrados. Queriam proclamar a república independente de Minas, com capital em São João del-Rei, e abolir as dívidas fiscais.
Tiradentes não era o líder intelectual da conspiração — era o agitador. Enquanto os doutores conspiravam nos saraus, ele ia às ruas e tavernas falando abertamente sobre a revolta, o que acabou sendo fatal para todos.
Em março de 1789, antes que qualquer ação fosse concretizada, a conspiração foi delatada. O coronel Joaquim Silvério dos Reis, devendo uma fortuna à Coroa, entregou os nomes aos portugueses em troca do perdão de suas dívidas. A repressão foi imediata.
O julgamento e a morte exemplar

Dos conspiradores presos, a maioria recebeu sentenças de degredo — exílio nas colônias africanas. Alguns foram perdoados. Tiradentes, no entanto, foi o único condenado à morte.
Por que ele? Historiadores apontam alguns fatores: sua condição social mais baixa o tornava um bode expiatório conveniente; sua postura no interrogatório — assumiu culpas que outros negaram — também pesou; e sua disposição em defender abertamente as ideias republicanas durante o processo o colocou em posição indefensável perante a Coroa.
No dia 21 de abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier foi enforcado na praça pública do Rio de Janeiro. Depois, seu corpo foi esquartejado — a pena máxima reservada aos crimes de lesa-majestade. Sua cabeça foi exposta em Vila Rica como advertência.
Ele tinha aproximadamente 46 anos.
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Como o alferes virou herói nacional
Aqui começa a parte mais interessante da história: a construção do mito.
Durante o Império, Tiradentes era uma figura incômoda — afinal, havia lutado contra a ordem monárquica. Foi com a Proclamação da República, em 1889, que sua reabilitação se tornou projeto de Estado.
Os republicanos precisavam de um símbolo. Precisavam de um mártir que encarnasse o espírito da nova nação. Tiradentes era perfeito: havia morrido pela república antes de ela existir, era de origem popular, e — detalhe importante — estava morto há cem anos, sem herdeiros para reclamar direitos sobre a narrativa.
O historiador José Murilo de Carvalho, em seu clássico estudo sobre a formação dos símbolos republicanos brasileiros, documenta como a imagem de Tiradentes foi deliberadamente modelada a partir da iconografia cristã. Os retratos da época o representam com feições que lembram Jesus: barba longa, expressão serena, postura de mártir. A coincidência com a Semana Santa não era acidental.
‘Tiradentes foi o único herói consensual da República brasileira. Serviu a liberais e conservadores, militares e civis, porque cada grupo podia projeter nele o que queria’ — José Murilo de Carvalho, historiador.
O 21 de abril foi declarado feriado nacional em 1890, apenas um ano após a Proclamação da República. A data escolhida coincide propositalmente com a véspera do aniversário de Tiradentes — e com a proximidade da Semana Santa, reforçando o simbolismo religioso da figura.
O feriado hoje: entre a memória e o esquecimento
Para a maior parte dos brasileiros em 2025, o 21 de abril é simplesmente um dia de descanso. Pesquisas de opinião realizadas periodicamente mostram que uma parcela significativa da população não sabe explicar com precisão quem foi Tiradentes ou por que a data é comemorada.
Isso não é necessariamente uma falha da educação — é o destino natural de todo mito nacional que cumpriu sua função política e passou para o segundo plano do cotidiano. O feriado existe; a história que o justifica, cada vez menos.
O que permanece, porém, é a dimensão trágica de uma vida real. Joaquim José da Silva Xavier foi um homem que acreditou em algo, falou demais sobre isso, e pagou o preço mais alto. Se era herói ou ingênuo, cada época responde à sua maneira.
O Brasil de hoje, às voltas com suas próprias disputas sobre liberdade, corrupção e poder, talvez ainda encontre algo útil nessa história — desde que pare de olhar apenas para o mito e comece a enxergar o homem.
Nota de transparência: Esta matéria foi produzida com base em fontes históricas consagradas, incluindo obras de José Murilo de Carvalho e registros documentais do período colonial. Jornal da Região — jornalismo independente no Extremo Sul da Bahia.
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Fonte: Reprodução — Por Cara&Coroa


