Possibilidades e faces literárias em “Libitina – Elegias e alguns infortúnios”, de Jorge Ventura
Erivan Santana com exemplar de "Libitina – Elegias e alguns infortúnios", de Jorge Ventura — Foto: acervo pessoal
Mesmo distante, acompanhei o lançamento no Rio de Janeiro, de “Libitina – Elegias e alguns infortúnios”, de Jorge Ventura, através da internet. Dava para perceber que a arte e a literariedade envolviam toda a obra, pelo que foi divulgado e pela brilhante perfomance de Val Mello, representando a divindade romana que simboliza a morte, Libitina.
Mas quando recebi o pocket livro em mãos, a certeza da realização artística e literária se materializara, diante não somente da qualidade dos minicontos, mas também da concepção e cuidados técnicos de edição que marcam a obra, com as ilustrações de Waldez Duarte e o intenso contraste de cores, oscilando entre o branco e preto.
Convém ainda observar que o autor nos coloca em contato com a alta cultura e tradição literária Ocidental, particularmente a mitologia romana, onde Libitina ocupava papel de destaque, sobretudo durante os ritos funerários, em toda a sociedade, particularmente na alta sociedade de Roma. Já a palavra elegia, presente no subtítulo: “Elegias e alguns infortúnios” – designa o gênero poético ligado ao lamento, à tristeza, pela perda – ocasionada pela morte, passagem do tempo e fragilidade da vida.
Apesar de serem contos – ainda que breves – o texto em prosa apresenta nuances poéticas, pelo refinamento da escrita e pela presença do ritmo que os caracterizam, ao longo do livro.
Assim, a obra recente do talentoso escritor carioca faz-nos refletir sobre as muitas possibilidades que a literatura pode nos proporcionar, diante de um tema tão sensível ao longo da história humana, que sob a regência de Ventura, se revela com uma certa leveza, sem perder o tom melancólico, reflexivo – e por vezes irônico, revelados pelo autor.
A relação da morte com questões de interesses financeiros e o inesperado, que estão presentes no nosso cotidiano, aparecem logo no início, no microconto II:
“O outdoor anunciava a venda de um jazigo perpétuo em suaves prestações. Nem deu tempo de ler. Seu carro, descontrolado, capotou na pista. Infelizmente, perdeu a promoção”.
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A forma como o tema é tratado e relatado atrai o leitor, que prossegue com a leitura de um só fôlego, foi essa a sensação que tive. Por vezes, não conseguimos deixar de sorrir, ainda que com contenção, como neste outro microconto, o XIX:
“Naquela cidadezinha do interior, carpideiras foram contratadas para chorar durante o velório. Uma parou de atuar para se lamentar de verdade. O falecido lembrava seu adorável pai, que partiu de cirrose quando ela era jovem”.
E assim, a leitura e a escrita fluem, retratando as dores, as angústias, o inesperado, a vaidade e a inveja humana, temas caros ao fazer literário.
Ventura consegue, com uma temática que à primeira vista poderia se revelar inoportuna, fazer uma profunda reflexão, que se revela muito bem-vinda, com arte e talento literário, fazendo-nos um convite irresistível: Carpe diem!
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Erivan Santana é poeta, micro/contista e titular da Cadeira 36 da Academia Teixeirense de Letras (ATL).
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Fonte: Por Erivan Santana


