UFSB vira palco de resistência estudantil durante o encontro da Assembleia da Democracia

por Luiz Oss
Costumo dizer que o jornalismo é a História escrita com tinta fresca. E, naquela noite de sexta-feira, 9 de outubro, os presentes na Assembleia da Democracia, realizada no Campus Paulo Freire, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), em Teixeira de Freitas, tiveram a sensação de que a História estava sendo escrita diante de seus olhos. Mais do que isso: cada um que participou daquele encontro sentiu como se, de fato, fizesse parte dela.
Afinal, por mais que a assembleia tivesse como objetivo tratar de questões do cotidiano da universidade e da organização estudantil, a atual e preocupante conjuntura política permeava cada aspecto daquele encontro. Por mais que o foco estivesse nas pautas voltadas ao ambiente universitário, a tensão diante do cenário eleitoral criava uma atmosfera tão angustiante quanto claustrofóbica.
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Apesar do clima de preocupação, a juventude protagonizou um encontro marcado por uma injeção de ânimo diante de uma campanha cujo desfecho, aos olhos dos mais pessimistas, já parecia irreversível.
Tudo de novo no front
Se a universidade fosse um campo de batalha, cada parede seria uma trincheira a ser conquistada. Pequenos cartazes, com frases de efeito e alertas sobre a candidatura de Flávio, disputavam espaço e visibilidade com as grotescas pichações em apoio ao candidato do PL.
Em determinado momento, vi duas estudantes colando novos cartazes próximo ao elevador, depois que outros haviam sido removidos e transformados em confete.

“Essa é a forma como eles agem. Não aceitam o contraditório. Porque não colam cartazes refutando cada um dos pontos que levantamos? Eles não podem, porque não há como contestar a realidade. Então, o que lhes resta é ocultar os fatos. O nosso maior cabo eleitoral é a verdade”, explicou uma das jovens enquanto colava um pequeno cartaz.
Logo depois, deparei-me com uma pichação na parede que dizia: “Vote 22”. Rapidamente, novos cartazes foram colados sobre a inscrição, enquanto a ação era registrada pela câmera de um celular.

“Eles podem até tirar nossos cartazes, mas eles estão eternizados em vídeo. Este pequeno gesto, por si só, possui uma mensagem poderosa que jamais poderá ser feita em pedaços pelas mãos da extrema-direita”, destacou a estudante.

Mais perto do que se imagina
Antes do início da assembleia, conversava com alguns universitários sobre a situação política quando fui surpreendido pela informação de que algumas pessoas haviam passado pelo local registrando, por meio de celulares, quem estava se reunindo para o ato.
A interpretação entre os estudantes era de que aquela movimentação poderia ter como objetivo intimidar ou identificar os envolvidos, especialmente as lideranças.
Se esse era o propósito, porém, não surtiu efeito algum. Pouco depois, a assembleia teve início.
Vozes que não se calam
A assembleia foi presidida por Karl Valente Kayapó, presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Sul da Bahia. Valente também preside o Centro de Formação em Desenvolvimento Territorial do Diretório da Liberdade Estudantil (DALE).
Na ocasião, foram tratadas pautas referentes ao campus universitário. Entre elas, esteve o debate sobre a implementação de uma sala de descanso, proposta aprovada de forma unânime pelos presentes.
Outro ponto abordado foi a sensação de perseguição dentro do campus diante do atual contexto político. Casos recentes, como o incêndio ao prédio da UFPE e o tiroteio durante uma passeata da esquerda em Sergipe, reforçaram ainda mais o clima de preocupação entre os estudantes.
Com um discurso eloquente e cativante, Valente destacou que o caráter da assembleia era, sobretudo, fortalecer a unidade dos estudantes da instituição e mostrar que a luta em defesa da democracia e da educação também passa pela defesa do próprio espaço institucional, diariamente atravessado pelas disputas políticas e por manifestações contrárias aos princípios democráticos.
Valente explicou ainda que, embora casos de racismo e homofobia dentro da universidade já fossem relatados esporadicamente, esses episódios teriam se tornado mais frequentes após o primeiro turno das eleições.
Vox populi, vox Dei — a voz do povo é a voz de Deus
Em seguida, foi concedida aos presentes a oportunidade de discursar ao microfone. Foi um momento catártico.
A indignação e o medo provocados pelo resultado das urnas no último domingo, até então entalados na garganta, foram colocados para fora pelos participantes. Apesar das diferentes abordagens, havia um denominador comum nas falas: o temor de que a democracia estivesse em risco.
Isso ficou ainda mais evidente com a fala do ex-prefeito João Bosco, que, como em um verdadeiro plot twist, surgiu no evento para surpresa de muitos, pois o mesmo havia sofrido um acidente de carro há poucos dias, mas, felizmente, estava bem.
Foi dele uma das frases mais emblemáticas daquela noite: “Podemos perder a nossa democracia pelo voto.”
Não seria a primeira vez. A Alemanha dos anos 1930 que o diga.
Como escreveu certa vez Karl Marx, ao analisar a história política francesa, determinados acontecimentos podem ocorrer primeiro como tragédia e depois como farsa.
A farsa parece estar montada. E seu resultado poderá ser tão trágico quanto se tudo tivesse acontecido por acidente.
A arte de protestar
O encontro terminou com a confecção de cartazes que fotam utilizados na grande manifestação marcada para este sábado (10).
Slogans dos mais variados eram cuidadosamente pintados pelos estudantes. Em cada cartaz, palavras de ordem carregavam um tom de denúncia, mas também de alerta.

E talvez tenha sido justamente essa a imagem que ficou daquela noite: jovens reunidos diante de folhas de cartolina, pincéis e tintas, enquanto do lado de fora a disputa política parecia cada vez mais agressiva.
No fim, a assembleia não terminou exatamente quando o microfone foi desligado. Ela continuou nas paredes, nos cartazes, nas conversas de corredor e nas mãos daqueles que permaneceram ali preparando a manifestação do dia seguinte.
Naquela noite, entre uma pichação coberta, um cartaz colado e uma frase escrita com pincel, a política deixou de ser apenas aquilo que acontece nas urnas ou nos palanques. Tornou-se concreta, palpável, quase física.
E talvez seja essa a essência do jornalismo: testemunhar o instante em que os acontecimentos deixam de ser apenas notícia e começam a se transformar em História.
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Fonte: Por Luiz Oss


