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Zarfeg comenta “O Spleen de BH” – Volume 2, de Leonardo de Magalhaens

15 de agosto de 2024
Zarfeg comenta “O Spleen de BH” – Volume 2, de Leonardo de Magalhaens

O poeta e crítico Leonardo de Magalhaens apresenta sua nova obra poética - Fotos: divulgação

“O Spleen de BH” – Vol. 2 (Selo Starling, 2024) dá seguimento a “Spleen de BH: Ásperas Flores”, mantendo a mesma pegada e, também, dialogando com “O Spleen de Paris – Pequenos Poemas em Prosa”, de Charles Baudelaire. 

O mesmo Baudelaire que, com a obra “As Flores do Mal”, deu início à lírica moderna, libertando o poeta das temáticas românticas e, ao mesmo tempo, livrando o poema das amarras formais herdadas do classicismo do século XVI e neoclassicismo dos séculos XVII e XVIII. E cujos ecos ainda seriam ouvidos no século XIX e, cá entre nós, até o início do século XX, com o famigerado parnasianismo, representado pelos Bilac no verso e os Coelho Neto na prosa.

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Com essas flores terríveis, o poeta maldito inaugurou o decadentismo – que seria batizado de simbolismo – imprimindo mais liberdade formal à arte de poetar e mais autonomia existencial aos poetas, que passaram a interagir com o caos urbano à sua volta – inaugurado pela chegada das fábricas e dos operários – de maneira insatisfeita, dolorida e até melancólica. Daí o sucesso do chamado “Spleen” (estado de tristeza autoconsciente e reflexivo).

Com os pequenos poemas em prosa, então, essa insatisfação estética e filosófica foi elevada à enésima potência, com uma prosa reflexiva, livre e “sem ritmo nem rima”, conforme as palavras do próprio Baudelaire. Agora os poetas estavam livres para exercer a sua inutilidade intrínseca em meio ao utilitarismo reinante nas grandes cidades da Europa, como Londres e Paris, produzido pela revolução industrial.  

Imbuído desse espírito baudelairiano é que Leonardo de Magalhaens tem nos brindado com seu Spleen – versões 1 e 2 –, movido pela criticidade de sempre para com a capital mineira, Belo Horizonte, e pela irreverência diante do texto poético, que, com sua habilidade, rompe os limites estabelecidos entre verso/prosa, fantasia/realidade e progresso/atraso. Nem poderia ser diferente, porque os tempos mudaram para melhor/pior, mas os desafios acompanharam o progresso técnico-científico, explicitando as desigualdades sociais, os extremismos políticos e os abismos presentes na relação cultura versus natureza e arte vs.vida.

Zarfeg comenta “O Spleen de BH” – Volume 2, de Leonardo de Magalhaens

Almir Zarfeg com exemplar de "O Spleen de BH", de Leonardo de Magalhaens

O que era bom ficou ainda melhor, porque os textos que compõem “O Spleen de BH” – Vol. 2 são apresentados de maneira ainda mais livre e fluida do que os textos presentes no primeiro volume. Lá predomina a prosa poética, além da visão crítica e implacável de Leonardo. Aqui, em vez de prosa poética, temos belas crônicas dedicadas à cidade e seus personagens – sobretudo na segunda parte intitulada “Noite”. E alguns poemas como, por exemplo, “Zona boêmia de BH”, “Carnaval em BH” e “A Cidade”, versão 2 não deixam dúvida de que a noite belo-horizontina é mesmo uma criança terrível. “Terrible enfant”, como se diz em francês. 

Mas, além de poeta, contista e crítico literário, Leonardo de Magalhaens é também uma criança terrível que, durante o dia, sai pelas ruas e avenidas de Beagá exercitando a flânerie, distribuindo milho aos pombos e compartilhando sua prosa poética com gente petrificada como Pedro Nava, Drummond & Drummond (Carlos & Roberto), Adão Ventura, os quatro cavalheiros do doce apocalipse, etc. 

Na primeira parte da obra – Dia – aprendemos um pouco como é a vida urbana em BH: “Viver na cidade é um problema / Para tudo tem um certo esquema”,  com ritmo e rima, como vocês podem notar. Afinal, continua o poeta: “É um desafio viver na cidade / Selva de pedras em qualquer idade”. 

Um festival de HQ em BH, então, é simplesmente imperdível: “Tantos mangás, cartuns, caricaturas, / HQs tão belas quanto pinturas...” Porque: “Heróis da Marvel ou da DC, / e mais Vertigo e Panini a se ver...” 

Atento ao vaivém dos autos e dos transeuntes, o poeta segue sem destino pela área comercial de BH, entra no Edifício Arcângelo Maletta, dá uma sapeada na Galeria do Ouvidor, se distrai um pouco no Mercado Central, ei-lo agora perdido na área administrativa de BH: “uma secretaria ao lado de uma secretaria ao lado de uma receita federal ao lado de um museu ao lado de uma secretaria ao lado de uma delegacia ao lado de uma secretaria ao lado de uma repartição ao lado da polícia ao lado dos correios ao lado da prefeitura ao lado do ministério ao lado do banco estadual ao lado do banco federal ao lado da repartição ao lado do automóvel clube ao lado da secretaria...”

Perdido na cidade e em si mesmo, mas capaz de poetar, de concatenar lé com cré, dando vazão ao caos poético que busca o caos urbano e, quando se encontram, a confusão está armada no meio da rua, da via expressa ou semiexpressa, da calçada ou do meio-fio. 

O poeta se perde e se acha em algum lugar: área hospitalar de BH, Barro Preto, Avenida Dom Pedro II, Carlos Luz, Silviano Brandão, Cristiano Machado, Orla da Pampulha, Avenida Portugal... 

“um clube esportivo ao lado de uma escola estadual ao lado de um condomínio ao lado de uma padaria ao lado de um pet shop ao lado de um quase shopping ao lado de uma borracharia ao lado de um condomínio ao lado de um supermercado ao lado de um restaurante ao lado de um clube de tiro ao lado de uma academia ao lado de uma estação de ônibus ao lado de um clube esportivo” 

“Ao lado de” é uma locução prepositiva de que Leonardo de Magalhaens lança mão para botar um pouco de ordem na desordem, racionalizar o irracional, suavizar a selva de pedras, enfim, para imprimir o mínimo de pausa (ritmo?) ao máximo de imóveis, pessoas e palavras. 

“Ao lado de” também constitui um recurso estilístico – por que não? –, na medida em que nos deixa desorientados e embriagados como um A de ponta-cabeça ou – ainda – um recurso ético apregoado pelo profeta José Datrino: “Gentileza gera gentileza”. Profeta paulista e não mineiro, que fique claro. 

Leia resenha que Almir Zarfeg dedicou a “Spleen de BH: Ásperas Flores” neste LINK.

 

 

 


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Fonte: Redação