Zarfeg dedica poema ao músico ClauduArte Sá, que acaba de completar 70 anos de idade
Encontros/reencontros: Zarfeg e DuArte na pandemia e, nos anos 90, em Itanhém
Almir Zarfeg dedicou o poema “Que é um cumpadi?” ao músico ClauduArte Sá, que acaba de completar 70 anos de uma vida repleta de sons e cores. Uma singela homenagem ao grande artista brasileiro e cidadão do mundo.
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ClauduArte é natural de Boa Nova (BA), mas, ainda criança, foi morar em Itanhém no extremo sul baiano. Depois, já adolescente, seguiria para Nanuque (MG), para fazer o ginasial. Anos depois, partiria para Vitória (ES), onde cursou jornalismo, de onde se mudaria para a capital paulista, onde estudou violão clássico no Conservatório Musical Heitor Villa Lobos. A partir de 1988, o músico trocou Belo Horizonte (MG) pelos Estados Unidos, onde deu seguimento à carreira musical, seja como compositor, intérprete, professor e produtor, tendo gravado CDs e ganhado alguns festivais da canção. (Essa parte da biografia do músico ficará para outra oportunidade.)
ClauduArte Sá, em 2013, se apresentando na Casa da Cultura de Itanhém
O mais importante aqui, no entanto, é ressaltar a passagem do artista por Itanhém, cidade que teve e continua tendo grande relevância na trajetória dele. A parceria poético-musical de Almir Zarfeg com DuArte também será apresentada neste breve perfil.
O menino DuArte manteve contato com o violão, pela primeira vez, em Itanhém. (No geral, os artistas itanheenses se referem à cidade como “Água Preta”, nome original do povoado fundado por Simplício Binas.)
A estreia musical se deu nos programas de calouros, quando ainda era adolescente, no Cine Bralanda (em Nanuque) e, depois, no Cine Clarim (em Itanhém). A essa altura dos acontecimentos, já havia se tornado vocalista do conjunto “Sunset”, que se apresentava em festas e bailes. O primeiro e inesquecível salário como “crooner”: C$ 20,00 Cruzeiros.
O próximo passo foi a criação do “Grupo Água Preta”, que, além de ClauduArte, reunia outros jovens como Jaiel Teixeira (Bode Mé), Miguel Afonso, Gilson Teixeira (Gilsinho) e Heloísa Helena. Registram-se também apoiadores como Dermival Pinheiro, Eclison Tito (Gatim), Oséas Moreira e Roberto Caires.
O grupo, misto de música e teatro, fez apresentações na Escola Polivalente, no Clube Social, no Cine Clarim, no Líder Bar, etc. O mais interessante é que o repertório incluía canções de grandes nomes da MPB, como Dorival Caymmi, João Gilberto, Tim Maia, Gil e Caetano, mas também melodias próprias de DuArte, Jaiel e Miguel Afonso.
O ano de 1976 marcou oficialmente o início das apresentações musicais que, de Itanhém, acabaram ganhando outros palcos em cidades circunvizinhas. A peça “Água Preta” foi apresentada na Praça da Liberdade, em 1979, durante a realização da I Feira de Artes.
Essa mesma juventude brilhou, no carnaval de 1978, com a apresentação do 1º Trio Elétrico de Itanhém. A trupe contava com ClauduArte, Glória Sá (irmã de DuArte), Jaiel e Miguel Afonso. Marchinhas e frevos foram compostos para esse evento carnavalesco que percorreu as principais ruas da cidade e ainda contou com a participação especial de Feêga (cavaquinho) e Carlito (saxofone).
Convém observar que havia também uma preocupação desses jovens com o resgate cultural água-pretense, seja através das canções e/ou dramatizações, sempre valorizando nomes da história e folclore locais, como Simplício Binas, Manezim do Gavião, Maria Rayban, João Bocão, Caldumiro, Bita de Abilão e Guilhermina Passa-pó.
DuArte exibindo livro de trovíssimas de autoria de Almir Zarfeg
A década de 1980 começou com ClauduArte Sá cada vez mais envolvido com música, cantando e compondo, inclusive aberto às preocupações mais técnicas, pronto para desvendar os mistérios da linguagem musical. É quando troca Vitória por São Paulo, para estudar violão clássico e conhecer os grandes mestres, como Matteo Carcassi, Mauro Giuliani e Fernando Sor.
Nessa época, ele e as irmãs Glória e Cida formam o “Violassá”, trio com apresentações agendadas em Itanhém e na redondeza. Interessante é que, não mais que de repente, ClauduArte estava de volta à terra natal, para se apresentar e, sempre, fazia questão de convidar nomes locais para seus shows, como Tatá Spalla, Nô da Sanfona, Nego Som, Juju Medina, Carlinhos dos Leões e, claro, Bode Mé.
Sempre em ascensão, DuArte firma parcerias com ótimos letristas, como Gilberto Rabelo, Valdir Paraíso, também conhecido como “Azulão”, e Giovani Angius. O artista itanheense – como faz questão de se definir – começa a ver seu nome ganhar projeção, com shows agendados em cidades de Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco e outros estados nordestinos.
O primeiro encontro de ClauduArte com Almir Zarfeg se deu no final dos anos 90, em Itanhém, quando o músico visitava a cidade. Os dois voltariam a se encontrar no início dos anos 2000, em Belo Horizonte, durante um show no Jequitibá. Desses encontros e reencontros recheados de muitas conversas, Zarfeg organizou uma entrevista que foi publicada na revista “Expressão”, de Teixeira de Freitas (BA). Esse bate-papo iria parar nas páginas do livro “Rápidos & diretos”, publicado em 2017, de autoria zarfeguiana.
Os dois artistas se reencontrariam outras vezes, como durante uma das edições da Festa da Integração dos Itanheenses Ausentes e Amigos (FITA), em 2013, e mais recentemente, em Teixeira de Freitas, em plena pandemia do novo coronavírus.
O mais importante é que a parceria poético-musical deles só aumentou com o decorrer dos anos. DuArte musicou dezenas de poemas zarfeguianos, inclusive aqueles que aparecem no CD que acompanha a 2ª edição de “Água Preta” (Scortecci, 2007), de AZ. Em troca, este escreveu a apresentação do CD “Bossa Rural II” daquele.
ClauduArte, que também é pintor, ilustrou o livro infantil “As borboletras”, de Zarfeg. Ainda musicou trovas e quintas. Por tudo isso e muito mais, em 2018, na celebração do 6º aniversário de emancipação política de Itanhém, ClauduArte Sá foi homenageado como uma das 60 personalidades mais importantes da história itanheense. Com certeza, ele continua merecendo muito mais.
Ouçam “Senha”, parceria de ClauduArte com Zarfeg, clicando aqui.
Que é um cumpadi?
um cumpadi é mais que véio,
brother e colega?
menos que amigo do peito,
irmão e camarada?
em pé de igualdade com
cúmplice, chegado?
como orfeu, transforma tudo
que toca em canção?
um cumpadi nos encanta
à primeira nota?
jamais con-funde melodia
com harmonia?
A um só tempo, reúne
alegria e cantoria?
em pré-estreia, vai de
coro ou sola-mente?
um cumpadi é puro ritmo
ou viravolta ensaiada?
prefere um bom acorde
à sã consciência?
Mais que pizzicato em
estado de graça?
aos 70 anos, recém-feitos,
à vista ou a prazo?
na hora h, fácil ou demasia
damente humano?
um cumpadi – me digam –
é duarte ou du caralho?
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Fonte: Redação


