“Outono de carne estranha”, romance impactante e premiado de Airton Souza
Almir Zarfeg e Erivan Santana com exemplares do romance premiado
Airton Souza estreou no romance com “Outono de carne estranha” (Record, 2023), obra vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2023. Portanto, ele começou com o pé direito na narrativa longa e, mais do que uma promessa, vai repetir o sucesso que já acontece na literatura infantil e, sobretudo, na poesia.
Para quem não sabe, Airton se firmou como autor de mais de 40 livros e colecionador de prêmios literários. Somente em 2023 ele ganhou 15 prêmios, entre os quais Ecos da Literatura, Off Flip, Afeigraf, VIP de Literatura, Femup e SESC de Literatura.
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Dito isso, passemos a “Outono de carne estranha”, que se concentra na história de Manel e Zuza, que vivem uma relação homoafetiva em pleno garimpo de Serra Pelada, no sudeste do Estado do Pará, na década de 1980. Aliás, a narrativa se inicia com uma cena de sexo obscena, mas conduzida com maestria pelo autor que, em nenhum momento, faz concessões à escrita afetada e muito menos à leitura acanhada. Muito pelo contrário. O narrador está pronto para revelar as cenas de sexo pesadas entre dois homens e explicitar, com exclusividade, o pano de fundo desta trama de amor, suor, violência, barro e morte. Enfim, Serra Pelada.

É claro que, em um ambiente tão hostil e inóspito como o garimpo em questão –chamado de formigueiro humano –, um relacionamento homossexual não era bem-vindo ou permitido pelo código de ética editado pelo “marechal”, eminência parda que personifica a ordem, o progresso e a pátria. Se a presença de mulheres era terminantemente proibida naquele submundo, imagine o envolvimento íntimo entre dois garimpeiros. Uma vez descoberto o maricas, a punição seria implacável.
O trio de personagens centrais envolve ainda o padre Zacarias, que, decepcionado com o número de fiéis cada vez mais reduzido e impotente diante da realidade brutal e insalubre, renuncia à batina mas não à transcendência, optando por uma vida de garimpeiro, ou melhor, de formiga. A carta de renúncia, enviada à diocese de Marabá, continuaria sem resposta.
E levar uma vida de garimpeiro significava, sem eufemismo, pegar no batente debaixo da terra, manuseando picareta, pá ou enxadeco, ou carregando um saco de cascalho – às costas e apoiado sobre a testa – subindo e descendo as mamãe-adeus. Assim eram denominadas as escadas enormes e improvisadas que exigiam muita habilidade dos usuários. Despencar de uma altura daquelas era passar dessa para melhor, com direito a alguns segundos para dar um adeus à mamãe. Significava também conjugar o verbo bamburrar, que quer dizer encontrar ouro ou ficar rico no garimpo, e nos dias de folga pegar o pau de arara em direção aos povoados da redondeza e/ou à cidade de Marabá, para torrar as pepitas convertidas em cruzeiros no cabaré e na cachaça. Depois começar tudo de novo, na cava, no lamaçal, respirando o ar viciado.
Mas, além do trabalho pesado e desumano, da humanidade precária e do marechal opressor (“Marechal de merda. Bate-paus de bosta”) e onipresente, havia espaço para o exercício do desejo, da esperança e do lirismo (“Tudo posso naquilo que me entristece”).
Porque, mais do que conduzir o enredo com muita competência, Airton lança mão de uma série de recursos para tornar sua história não apenas verossímil, porque a ambientação fala por si, mas também impactante e convincente.
Através de flashbacks, os personagens dão notícias dos entes queridos que ficaram para trás, revelam seus dramas existenciais, explicitam seus medos mais recônditos e, mais que isso, cobram recepção dos leitores. Numa troca catártica que, ao fim e ao cabo, pode humanizar a coisa pública apropriada pela república federativa do brasil (assim mesmo em caixa baixa).
Airton Souza, autor do romance publicado pela Editora Record
Com doses caprichadas de lirismo, Airton ameniza a crueza da linguagem, adocica o amargor da existência, coloca boas-novas ou maus agouros na boca dos protagonistas, como a esperança de que (“Vai dar urso”) no jogo do bicho ou a promessa de que haverá outro “outono de carne estranha”.
Inventivo, o autor brinda seus leitores com tiradas metafóricas de acalmar o coração e ativar a imaginação (com perdão da rima), ou sacadas sacro-lírico-filosóficas de ludibriar mitologias e acalentar crendices, fazendo do texto uma experiência introspectiva, visual e libertadora por excelência. As cenas podem ser imaginadas, sentidas ou vislumbradas no enquadramento que o leitor preferir.
Recentemente, troquei algumas impressões com Erivan Santana e Toni Ramos Gonçalves sobre o romance de Airton Souza, que li entre sábado e domingo, ininterruptamente, da última semana.
Argumentei que os rótulos de romance erótico ou regionalista não dão conta da prosa potente, lírica, filosofante, documental e redentora de um artista da palavra muito preparado e cujo pai foi vítima da garimpagem. Munido desse repertório, Airton escreveu seu romance de estreia. E testemunhou como remanescente dessa tragédia brasileira chamada Serra Pelada.
Chamei a atenção dos dois também para o fato de o livro trazer os nomes próprios em letras minúsculas, com exceção dos personagens – como Manel e Zuza; dos topônimos – como Serra Pelada, Marabá e Trizidela; dos hidrônimos – como Araguaia, Itacaúnas e Sereno, que são grafados em maiúsculas.
Para um leitor experiente, esse recurso tem menos impacto formal e visual do que moral e transcendental. Afinal de contas um deus, um cristo e uma nossa senhora – minúsculos e minimalistas – não passam confiança em nada nem inspiram garantia de coisa alguma. Mas a literatura, ao potencializar o signo, ilumina nossa vida sempre. “Outono de carne estranha” é a prova disso.
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Almir Zarfeg é poeta, jornalista e presidente de honra da Academia Teixeirense de Letras.
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Fonte: Redação/Almir Zarfeg


