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Dramaturgo Cauan de Oliveira fala sobre a aguardada peça Romeu e Julieta: Pecado Original em Teixeira de Freitas

14 de julho de 2026
Dramaturgo Cauan de Oliveira fala sobre a aguardada peça Romeu e Julieta: Pecado Original em Teixeira de Freitas

O diretor e dramaturgo Cauan de Oliveira – Foto: Divulgação

por Luiz Oss

O teatro volta a ocupar o centro da cena cultural de Teixeira de Freitas com uma proposta que une formação artística, releitura de um clássico e valorização dos talentos locais. À frente do projeto está o diretor e dramaturgo Cauan de Oliveira, responsável por uma adaptação contemporânea de Romeu e Julieta, que promete aproximar a obra de William Shakespeare da realidade e das inquietações do público atual.

Dramaturgo Cauan de Oliveira fala sobre a aguardada peça Romeu e Julieta: Pecado Original em Teixeira de Freitas

Em entrevista ao jornalista Luiz Oss, o dramaturgo fala sobre o processo de criação do espetáculo, os desafios da montagem, a importância do teatro como ferramenta de conscientização e transformação social:

1) Shakespeare escreveu Romeu e Julieta há mais de quatro séculos. O que faz essa tragédia permanecer atual e quais aspectos da obra dialogam diretamente com as tensões do mundo contemporâneo? 

A força de Romeu e Julieta nunca esteve apenas na história de amor. Ela está na forma como os conflitos herdados moldam a vida de quem nem sequer participou deles. Quatrocentos anos depois, ainda vemos pessoas carregando preconceitos, disputas e ódios que nasceram em outras gerações. Shakespeare escreveu sobre famílias rivais, mas poderia estar falando de qualquer sociedade que coloca tradições acima da humanidade. É justamente isso que mantém a obra viva. 

2) Na elaboração do roteiro, você substituiu a rivalidade tradicional entre as famílias por tensões raciais. Como surgiu a ideia dessa mudança? 

Durante um curso rápido sobre teatro negro os professores nos deram essa provocativa, escrever sobre negritude sem deixar a dor ser protagonista. O racismo aparece como a origem da ruptura entre as famílias, mas não como o centro da narrativa. O que me interessava era mostrar uma família negra ocupando um lugar de protagonismo, de poder, de beleza, de tradição e de afeto. Muitas vezes a arte negra é lembrada apenas pela dor. Eu queria mostrar também sua riqueza cultural, sua música, sua espiritualidade, sua força política e estética. A tensão racial explica o passado, mas o presente da história é conduzido pelo amor, pela cultura e pela possibilidade de construir um futuro diferente. 

3) Toda adaptação envolve escolhas e renúncias. Qual foi a decisão mais difícil que você tomou ao reinterpretar esse clássico e por quê? 

A decisão mais difícil foi entender que eu precisava parar de tentar reproduzir Shakespeare. Durante muito tempo eu escrevia pensando no que ele faria. Em determinado momento percebi que essa peça precisava ter a minha voz. Foi quando deixei de lado o medo de alterar acontecimentos importantes da trama e comecei a perguntar: "O que essa história precisa dizer hoje?". A partir daí o roteiro realmente nasceu. 

4) Sua versão do clássico shakespeariano concede protagonismo às figuras maternas. O que o motivou a fazer essa escolha? 

Sempre me chamou atenção que, em muitas versões de Romeu e Julieta, as mães acabam ocupando um espaço secundário. Na minha leitura, elas são justamente as pessoas que carregam o peso da memória familiar. São elas que sustentam tradições, protegem seus filhos e, ao mesmo tempo, acabam perpetuando ciclos de dor. Dar protagonismo a essas mulheres tornou o conflito muito mais humano. Nenhuma delas é uma vilã; são pessoas tentando proteger aquilo que acreditam ser o melhor para suas famílias. 

5) De que maneira você equilibra o respeito ao legado de Shakespeare com a necessidade de imprimir uma identidade artística própria à obra? 

Respeitar Shakespeare não significa repetir Shakespeare. O maior legado dele talvez seja justamente mostrar que o teatro precisa dialogar com seu tempo. Mantive o coração da história — dois jovens que desafiam um conflito maior do que eles —, mas permiti que essa narrativa respirasse através da música popular brasileira, do teatro negro, da dança, da oralidade e das referências culturais que fazem parte da nossa realidade. Minha intenção nunca foi substituir Shakespeare, mas conversar com ele. 

6) Todo diretor tem uma relação especial com suas obras. Em que momento você percebeu que essa versão de Romeu e Julieta era uma história que precisava ser contada por você? 

Quando percebi que eu não queria apenas montar Romeu e Julieta. Eu precisava responder algumas perguntas minhas através dela. Como nascem os preconceitos? Até que ponto os filhos devem carregar as dores dos pais? E quando é que uma nova geração tem o direito de cometer seus próprios erros? A partir desse momento a peça deixou de ser apenas uma adaptação e passou a ser uma obra autoral. 

7) O amor é o tema central da obra, mas cada geração o enxerga de uma forma diferente. Como esse sentimento aparece na sua releitura de Romeu e Julieta? 

Na minha versão, o amor não aparece como um sentimento passivo. Ele é uma escolha política, quase um ato de coragem. Amar alguém significa desafiar estruturas, romper expectativas e enfrentar medos que existem muito antes do nascimento dos personagens. O amor deixa de ser apenas romance e passa a ser uma força capaz de interromper ciclos de violência. Talvez por isso a frase que melhor resume o espetáculo seja: "Onde a liberdade resulta na prisão, sonhar é um ato revolucionário." 

8) Você está reunindo jovens artistas de diferentes áreas em um mesmo espetáculo. O que mais tem lhe impressionado nos talentos que encontrou ao longo dessa jornada? 

A disposição deles para aprender. Temos atores, bailarinos, cantores e músicos construindo uma linguagem em comum. Muitos nunca haviam trabalhado juntos, mas todos entenderam que esse espetáculo só existe porque é coletivo. É bonito ver jovens artistas colocando seus talentos a serviço de uma mesma história. Isso é cultura, todos juntos, lutando pelo seu espaço.  

9) Além dos esforços dos artistas locais para a realização deste projeto, quem mais foi fundamental para que a peça saísse do papel?

Muitas pessoas foram fundamentais para que este projeto se tornasse realidade. Mas é importante destacar o desempenho da ex-secretária de Cultura e Educação e primeira-dama, Penélope Belitardo. Durante sua passagem pela pasta, ela teve um papel importante ao incentivar inúmeras iniciativas culturais em nossa cidade e oferecer apoio para que este projeto pudesse avançar. 
Sua atuação foi um verdadeiro divisor de águas na história da Secretaria de Cultura, de modo que sua contribuição em favor da arte local será sentida por gerações futuras de artistas em nosso município.

10) Quem conhece apenas a obra original ficará surpreso com quais elementos da sua adaptação? 

Acho que a primeira surpresa será perceber que essa não é uma simples atualização da história. Há mudanças estruturais importantes, personagens que ganham novos significados, relações familiares aprofundadas e um desfecho diferente daquele que o público conhece. Além disso, a presença da música popular brasileira, da dança, da estética afro-brasileira e da valorização do protagonismo negro transformam completamente a atmosfera da obra. Quem conhece Shakespeare reconhecerá a essência de Romeu e Julieta, mas encontrará uma história contada por outro olhar, com outra voz e outro coração.

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Fonte: Vejaessa – Redação